quarta-feira, 17 de outubro de 2012


A Águia e a Galinha

Uma metáfora sobre a condição humana




Certa vez um camponês foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo. Encontrou um filhote de águia. Colocou-o no seu galinheiro para crescer entre as galinhas. O camponês queria saber o que aconteceria com a águia se ela fosse criada como galinha. Todos sabem que as águias são aves fortes, voam acima de todas as demais aves, além de serem excelentes predadoras e aves muito corajosas.

A águia foi crescendo entre os pintinhos, aprendeu a comer a ração que eles comiam, aprendeu a ciscar o chão como as galinhas fazem e assim deixou de ser propriamente o que as águias são. Cresceu medrosa e limitada como qualquer outra galinha, embora suas asas medissem quase três metros de comprimento.

Um dia, um velho amigo do camponês estava visitando-o e o camponês, todo orgulhoso, contava como encontrou uma águia e transformou-a em galinha. Seu amigo duvidou, mas o camponês fez questão de mostrar a sua grande proeza. Aquele velho amigo ao ver a águia no meio das galinhas fez um desafio ao camponês.

— Vamos desafiar a águia... Ela é e terá sempre coração de águia.

— Você não conseguirá fazê-lo, esta águia agora é uma galinha. Ela nunca aprendeu a ser águia, durante toda a vida ela só soube ser galinha, e agora já é muito tarde para ela deixar de ser galinha.

— Não! Retrucou o amigo. Ela não é galinha é uma águia, vamos libertá-la para ver o que acontece!

Incrédulo o camponês aceitou o desafio e no dia seguinte seu amigo retornou bem cedo à fazenda, entrou no meio do galinheiro e pegou a águia-galinha. Enquanto isto o camponês observava o que seu amigo iria fazer e foi acompanhá-lo.

O amigo do camponês olhou para a águia e disse:

— Você não pode ser galinha, você é águia, voe!

Jogou a águia para o alto e, toda sem jeito, batendo as asas desordenadamente, caiu no chão e saiu correndo assustada para se ajuntar novamente às galinhas.

— Eu avisei que ela não é mais águia.

Disse o camponês.

Na manhã seguinte o homem retornou à fazenda do camponês, tomou a águia e levou-a para uma árvore bem alta, olhou mais uma vez nos olhos da águia e disse:

— Você é águia, sempre foi águia e não galinha.

Soltou o animal lá de cima da árvore, que arriscou um pequeno vôo, que de tão pequeno foi quase uma queda, mas logo foi se ajuntar com as demais galinhas, para ciscar o chão e comer milho.

Algumas vezes, outras águias sobrevoavam a fazenda, davam rasantes perto do galinheiro, a águia-galinha simplesmente observava, talvez tentando lembrar de algo que ela nunca havia sido, que por instinto desafiava sua natureza em busca da liberdade que as águias têm, mas que era abafado por sua “natureza” galinha.

No terceiro dia o amigo do camponês chegou na fazenda antes do sol nascer, mais uma vez pegou a águia, ajeitou-a em seus braços e a levou para a montanha mais alta da fazenda longe das casas e dos homens.

O sol estava quase nascendo, o céu já recebia os primeiros raios de sol em tom alaranjado, algumas nuvens perto do horizonte transmitiam o brilho que refletia misturado com o azul anil que ia chegando aos poucos. Era possível ver algumas colinas ao fundo que revelavam suas silhuetas ganhando cor e misturas de luz e sombras enquanto ia crescendo a luz em todo o horizonte, também se via as casas e a fazenda, pequenas, lá em baixo no vale. Outras águias começavam a alçar vôos naquela manhã e outras sobrevoavam acima dos dois homens e da águia-galinha no cume da montanha.

Enquanto o camponês observava. O amigo sussurrou aos ouvidos da águia:

— Águia, este é o teu lugar, você não é galinha.

Mas ela não voou tão rápido, então ele segurou bem firme a águia, apontou sua cabeça em direção ao horizonte onde nascia o sol. A águia-galinha tremia, não suportava olhar para o sol que ia nascendo, mas aos poucos seus olhos se enchiam com toda aquela luz, parou de tremer e já tentava se libertar das mãos daquele homem. Ergueu-se soberana, abrindo suas asas de quase três metros, de uma ponta a outra, emitindo um tímido, mas típico grasnar de águias. Outras águias respondiam ao longe, aquele kau-kau ganhou volume, chegou a fazer eco no vale e a águia começou a ganhar coragem para voar, arriscou seu primeiro vôo de liberdade, começou a voar em direção ao alto, foi mais alto ainda até se confundir com o azul do firmamento e voar por cima das nuvens.

A essência da águia ganhou lugar jogando fora o que não lhe era natural, a fraqueza e o medo próprios da galinha já não tinham mais lugar nesta nova vida, a águia finalmente se libertava da condição imposta de ser galinha e não águia.


Moral da história: Esta história eu li já faz algum tempo, num livro do Leonardo Boff, é uma lenda que foi contada pelo James Aggrey, Natural de GAMA, pequeno pais da África Ocidental em um discurso a favor da liberdade. Resolvi contá-la aqui de forma resumida, é claro. Queria apenas que você refletisse comigo sobre nossa condição des-humana, sobre aqueles que tentam dizer que somos fracos, incapazes, limitados e que não vale a pena lutar para mudar ou mudar para lutar.

Deus não nos chamou para sermos galinhas, mas sim águias. Não no sentido predatório próprio à águia, mas sim, no exemplo da força, da coragem e da resignação característicos e nela existente.

Existem muitos que tentam arruinar nossos sonhos e esperanças, mas nossa fé está Naquele que nos dá condição de enxergarmos além das circunstâncias, que nos faz ver o que realmente somos, não para limitação, mas para as possibilidades Nele encontradas.

O Deus que liberta te abençoe rica, poderosa e sobrenaturalmente!

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