terça-feira, 28 de novembro de 2017

Sempre mudando?

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A expressão semper reformanda tem sido traduzida de modo a significar “sempre mudando” e deturpada no interesse da mudança pela mudança. Para muitos, significa que tudo — desde o que acreditamos, o modo como nos comportamos em uma cultura que muda rapidamente, até à maneira como “organizamos a igreja” — está sujeito à revisão e reinvenção em cada geração. A expressão costumava ser usada por cristãos liberais para justificar a adequação da mensagem aos tempos, mas agora os evangélicos argumentam que é essencial para a sobrevivência do Cristianismo que nos harmonizemos com a cultura mutável se quisermos salvar a igreja da extinção.
Temos observado essa ideia ganhar força nas últimas décadas. Os líderes e membros da igreja estimulam a “mudança” como um sinal de “integridade” ou um elemento essencial para serem “relevantes” na geração atual. Há apelos para novas formas, métodos e estruturas para a igreja. A maioria dos chamados à inovação são impulsionados pela cultura sem Deus ao nosso redor e por nossos corações rebeldes em nosso interior. Queremos modificar a mensagem para atrair a sociedade; desejamos tornar a igreja mais “amigável” aos de fora, em vez de vê-la como a assembleia solene do povo da aliança de Deus.
Vemos esse espírito atuando na revisão das principais doutrinas bíblicas. Vozes imperativas desejam que reinterpretemos o ensino básico para acomodar a hegemonia da teoria da evolução. O abandono de um Adão histórico (ou, onde isso é admitido, a negação de que Adão foi o primeiro homem) é impulsionado por pessoas no banco que enfrentam diariamente os incômodos desafios dos seus colegas e vizinhos não-cristãos.
Esse clamor por mudança está por trás do redesenho dos limites do discipulado cristão. Quer se trate de encorajar um “discipulado secreto ou silencioso” entre os convertidos do Islã, a aceitação de novas definições de casamento para apaziguar o espírito da época, ou a tolerância de estilos de vida abertamente pecaminosos com a intenção de não julgar, observamos que o discipulado está sucumbindo à pressão externa sobre a igreja.
Isso também afetou o uso da palavra adoração. Em alguns contextos, ela é aplicada apenas à música — seja da variedade clássica ou contemporânea — e criou com ela um novo ofício na igreja: o “líder de adoração”. Outros querem deixar a palavra adoração completamente, argumentando que a adoração se aplica à “toda a vida” e não às assembleias do povo de Deus. Assim, o Dia do Senhor é como qualquer outro dia; a liturgia é substituída por “eventos de convivência”; os sermões tornam-se “conversas bíblicas”; e a ênfase das “reuniões” de domingo torna-se comunhão ou evangelização ao invés de uma assembleia pactual e adoração corporativa.
Essas inovações são contrárias ao exemplo dos reformadores, que negaram que fossem mutantes que estavam interessados ​​na mudança pela mudança em si. No sentido estrito, eles estavam estimulando um retorno à radix, à “raiz” do Cristianismo bíblico. Eles foram acusados por seus oponentes ​​de promover a mudança, mas a sua defesa foi que, na verdade, eles queriam conduzir a igreja de volta à Palavra de Deus. Eles imaginaram a reforma não como “fazermos mudanças” (ativo), mas como o “sermos transformados” (passivo). Em outras palavras, quando falamos sobre a reforma, pensamos no Senhor que nos reforma e na Escritura que é o seu meio de reforma.
O que acontece quando aplicamos a Escritura e nossas confissões à questão da adoração? O Novo Testamento retoma a linguagem do Antigo Testamento ao chamar a assembleia de povo de Deus. Os cristãos primitivos se reuniam no dia do Senhor com o povo do Senhor para ouvir a sua Palavra e oferecer orações. Pedro descreve como chegamos a Deus quando nos reunimos como pedras vivas em um templo — Deus está presente de uma maneira especial onde o seu povo se encontra. O culto público com a sua proclamação da Palavra é para Deus e para o seu povo da aliança e faz esses últimos serem edificados na mais santa fé (1 Coríntios 14). Os incrédulos podem estar presentes e estar sob convicção ao verem a obra da Palavra na vida dos santos.
Desde os primeiros dias, os cristãos cantavam bem como oravam. O Antigo Testamento até mesmo incentiva o povo de Deus a usar instrumentos na adoração (Salmos 33.2-3). Instrumentos de todos os tipos certamente contribuem para o canto cristão, e a música é um dom singular e belo de Deus. No entanto, o uso de instrumentos pode ter um impacto negativo, às vezes: eles podem manipular erroneamente as emoções das pessoas, podem se sobressair aos louvores do povo de Deus reunido, ou podem inibir a participação congregacional na adoração. A experiência musical em si pode ser adorada como um ídolo. Assim, devemos ter cuidado para não fazer uso do que é digno, auxiliar e útil — a música — e torná-la absoluta. Devemos ter cuidado para que a música não ocupe o lugar de Deus em nossa adoração.
Esses exemplos ilustram a necessidade de estarmos constantemente perguntando se as tradições herdadas ou práticas novas são bíblicas. Precisamos considerar se nossas práticas estão ajudando ou inibindo a nossa adoração a Deus. Onde nossas práticas contribuem com algo, precisamos ter cuidado para não as considerarmos em demasia e assim sacrificarmos os meios de graça ordinários: a Palavra, a oração e os sacramentos.